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Previsível, negligenciado e avesso às mudanças. Observador das atitudes alheias e o espelho dos feitos dela. Não raramente tédio é a minha odiosa companheira: Inseparável, insuperável e surpreendente. O sol escaldante que evapora o ego e que aviva a solidão e, que em raros casos, preconiza-nos até o seu último estágio: a morte. Também impregnado pelas vicissitudes em grau máximo. O alvo dos vulgares atos de indiferença e substimação - mas, resignado pela compreensão dessa fútil natureza.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Reencontrando uma "figura"

Meses atrás, passei em frente a uma pizzaria no bairro onde moro e encontrei um amigo que não via há 15 anos. Não o encontrei sentado à mesa fazendo talheres "tilintar" nos pratos jogando conversa fora com amigos ou afagando uma namorada. Estava sentado n'uma poltrona plástica do lado de fora do estabelecimento trabalhando como segurança. De primeira, não o reconhecí porque o local estava um pouco às escuras e nem tampouco havia motivos para encara-lo. Ele me reconheceu. Veio até a mim com a mesma calorosidade de anos atrás. Era um naipe de uma vasta carta de amigos que conquistei ao longo dos anos no local onde passava a maior parte das férias. Percebi de imediato que estava atento aos inúmeros rostos que por alí transitavam, cumprindo a tarefa que lhe fora designada. Fatalmente percebendo qualquer atitude suspeita dos inexpressivos (aos olhos leigos), passantes bons ou maus. Era inevitável um distração de 10 minutos de diálogo, depois de muitos anos sem ter qualquer notícia. Era um dos amigos que menos tinha recursos mas, estava presente em todas as nossas farras. Ninguém lhe cobrava 1 centavos que fosse. Um verdadeiro "porra-louca" - mas, tinha um carisma e humor singular. Quem era de fora, não entendia nossas brincadeiras e ficavam chocados com o seu infâme linguajar. De vez em quando, perguntava a um de nós: "... só queria saber, quando vocês irão até em casa comer a minha mãe!" Colocava-mos nossas cabeludas respostas no mesmo patamar. Sua convicta pergunta fazia arregalar os olhos de quem chegava com um certo pavor! Diversão com os novatos era pouca, tamanha a escabrosidade da fantasiosa proposta!
Essa figura não se acanhava em se aproveitar de uma ínfima distração nossa, quando nos aproximávamos do cais. Atirava fosse quem fosse, não se importando o que leváva-mos nos bolsos ou, muito menos de como estávamos vestidos.
Usávamos nossas melhores roupas para que, em alguma eventualidade pudéssemos impressionar algumas belas garotas que transitavam incansavelmente pelas ruas daquele lugar. Muitas das vezes davam-nos bem e, todos se empenhavam para arranjar-lhes uma pretendente. Infelizmente, na maioria das vezes isso não ocorria.

Reencontrei-o hoje. Tajara (o nome é real), ainda trabalhava no mesmo local. Fora afastado por um longo tempo por culpa de um triste fato: Abordado por assaltantes em seu serviço, reagiu às investidas e fora vitimado com quatro tiros (uma bala alojou-se na altura do intestino, a outra no abdômen e as outras duas na costela esquerda)Enquanto me contava, não podia evitar em demonstrar meu estarrecimento. Continuava vivo por obra de um milagre. A morte preparou-lhe o bote, mas não foi fatal. Mesmo com tudo cicatrizado, é no mínimo chocante perceber claramente esses rastros de sofrimento por culpa dos velhos "blás, blás, blás" sociais. Depois de alguns minutos de agonia por relatar suas mazelas, respirei aliviado por ter meu amigo firme e forte como antes. Alí estava Tajara: Mantendo a mesma linha temperamental de seu "carregado" estado de bom humor.

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